Parecia que as palpitações lhe soavam a pancadas abafadas na madeira da porta. Um ruído cego, que o fez contorcer-se até se mirrar de pânico.
Era sempre quando a madrugada começava a acordar que alguém lhe batia à porta, real ou imaginariamente. Um eco cheio de força que o reduzia ao ínfimo do quarto. Sentava-se na cama, sem acender a luz, espreitava pela janela sempre aberta. Esperava a claridade, ansiava que a luz o despertasse com um beliscar firme no braço. Mas da janela sempre aberta apenas vislumbrava uns pontinhos distantes a esmaecer. Sentado esperava. Sentado tremia, enquanto as mãos tacteavam em busca do maço e do isqueiro. Quedava-se sempre nesse instante, em que a faísca o poderia tanto salvar como derrotar. Entre a luz da chama e o ruído da denúncia, nunca se decidia.
Mais uma pancada, agora parecia vir das entranhas da parede fria. Todo o corpo latejava, a cada gesto na espera, maldizia a escuridão.
Ia falando, de si para si, de si para todos os que um dia o ouviram. Desfiava nomes que o tempo não esborratou. E feitos e gestos e memórias. De cada pessoa, ia folheando as imagens, o toque, o sorriso, a expressão. E assim se entretinha enquanto a noite se despedia.
- Mas tu nunca dormes?
- Não sei ...
Vim da rua de matar alguém
E foi assim que eu matei por bem
As razões? Não há razões
É que eu não tenho mais amor para dar
e a ninguém
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