E
ste espaço (ainda) não morreu...
Ladainha dos póstumos natais
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
Deixou o frio instalar-se nas veias azuis que espreitavam o braço. Caminhou flutuando entre as pedras e o alcatrão riscado de tinta outrora branca. Nem por uma vez evitou os automóveis ressonantes ou o boneco encarnado que aconselha prudência e ordena paragem. Nem por uma única vez se preocupou em atravessar o abismo da Grande Alface com cautela.
O fumo esvoaça com ela, inunda-lhe os cabelos e turva-lhe os olhos, pode ser que ninguém repare nas tranças de água salgada que lhe rasgam o tempo da cara. O sol impõe-se no horizonte, e agora já só busca o esquecimento. Semáforo verde, continua a travessia. Podia estar vermelho...
Uma luz no escuro
Brilha a direito, ofusca as demais
Quase lhe tremiam as mãos enquanto bebia o café. Quase lhe tremiam os ossos. A tremura do corpo, ainda assim, não abalava a convicção da alma e era o que se repetia constantemente.
Na cadeira gasta ao lado, estava pousado o saco que há uns anos atrás levaria a roupa de desporto, hoje leva apenas o vazio de ser um gesto simbólico. Nele couberam anos de palavras escritas e pensadas, mas não ditas. Carrega olhares e semi-toques. No vazio.
As mãos tremem, mas os lábios sorriem. No pulso falta o relógio que lhe diria que está prestes a hora. Na rua uns tantos bebem o mesmo café num copo de plástico e fumam. Gente, e mais gente, e o vazio dos rostos, que não são o que procura. Uns quantos olhos persistem e ficam a ver, mas não obtêm resposta. Não há resposta possível para quem sabe o que espera.
...
As mãos tremem quando se levanta, e sem voltar a olhar para o saco, o deixa no sentado no banco do café. Vazio, cheio. Ninguém dá por nada. Ninguém deu por nada. Saiu, com um sorriso nos lábios, sem tremuras ou indecisões.
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Escrevinhou qualquer coisa rapidamente num bocado de papel amarrotado enquanto lutava com a memória para que não apagasse as palavras que se juntavam num todo quase coerente, ao invés do que tinha sucedido nos últimos meses.
Sentada na beira da cama, os olhos perscrutaram o quarto mal iluminado e tristonho, as cortinas densas e pesadas, de um cinzento que ja tinha sido verde, os vidros foscos e carentes de água, as paredes quase despidas de cor e adornos.
Um monte de papéis amarrotados à mesa de cabeceira, tão rascunhados como este que agora prende na mão, fê-la entender quão vaga era a esperança de conseguir compreender a sua história.
Deitou-se e desejou fechar os olhos como se fechá-los fosse abrir uma qualquer porta de lucidez ou de memória. Tentou encontrar-se em fotografias desbotadas, em filmagens esbatidas, em toques e gestos, em palavras ou conselhos, em cores, em sons, em vozes, em qualquer retalho ou pedaço de vivência a que pudesse chamar sua.
Em vão.
No dia seguinte, a mulher de bata branca entrou no quarto, dignou-lhe um olhar cansado e habituado. Passou-lha a mão pela face branca.
"O quarto 23 vagou"...
Agora já não vejo o sol
nem seu reflexo lunar
levo as asas nos bolsos
e o coração a planar
neste voo nocturno
não sei onde vou aterrar
Soube pelo olhar dela que se tinha atrasado demais. Precisamente uma dezena e meia de minutos, contando pelo relógio inexorável.
Soube-o também pelo silêncio dos seus olhos e pelo fechamento das suas mãos.
No fundo da garganta tentou encontrar palavras e percebeu que se atrasara havia muito tempo. Não fora hoje, nem ontem, foram apenas os segundos de espera que se deixaram acumular sobre o pó da incerteza. Nunca fora homem de palavras, por mais homem de palavra que fosse. Nunca fora pessoa de um simples "gosto de ti" porque o dava por adquirido e apreendido.
No fundo da garganta, encontrou o olhar morno dela. E abraçou-a, no meio da multidão.
Nessa altura sentiu o tic-tac do relógio apressado. Ainda vens a tempo, diria ela enquanto servia o vinho. O tic-tac. O vinho.
Pousou o copo e fechou os olhos. Prendeu-lhe a mão nas suas e os olhos mornos pousaram em si...
Bem por trás do que eu queria dizer
Uma cisma que eu não consigo aceitar
Eu convivo com medo de ter
Novas mentiras para o mundo brincar
Cheirava a vento...
Foi o primeiro indício de terras estranhas que conseguiu memorizar quando desceu do autocarro. Cheirava a vento, mas não era o mítico aroma da mudança. Era o cheiro da exacta mesmitude.
Os passos tentavam ser seguros, mas o olhar prendia-se nos letreiros e nos nomes das lojas, buscando pontos de referência futura. Vou perder-me, pensou, quando os passos abrandaram. Na montra de um café encontrou o reflexo. Estava igual ao que encontraria num outro qualquer vidro, os olhos, talvez mais cavados, perscrutavam um mínimo sinal de diferença. Nenhum.
Recordou os passeios, iguais. As pessoas, iguais. Os cheiros, iguais. As palavras, iguais. Mudava apenas a cor dos autocarros e os nomes neles escritos.
Um homem aproximou-se, cara lavada mas não barbeada, olhos ainda mais cavados, sorriso morto na última semana por uma navalha chamada engano, esboçou um cumprimento e esperou.
Aproximaram-se. Está meio desorientado, diz o homem mais cavado. Não sou de cá, concluiu o outro, franzindo o sorriso desconfiado. Mediram-se, palmo a mais, palmo a menos. Barba com barba, um mais alto e cheio, outro menos alto e claramente mais magro. Vai para onde? Os olhos do estrangeiro perderam-se na questão. Não sei, ouviu-se dizer sem espanto. Não sei, ouviu o homem que se aproximou e também não se espantou. Tirou um maço de tabaco do bolso e ofereceu um. O estrangeiro aceitou, não acendeu o isqueiro à primeira tentativa, e quando aspirou o fumo desfez-se numa tosse ingénua. Isso vai mal amigo. Nem imagina como... e colou os olhos cavados no asfalto igual.
Mediram-se novamente enquanto fumavam em silêncio. Apagadas as beatas, o homem ainda mais cavado resmungou algo sobre o tempo e a chuva, o estrangeiro assentiu em monossílabos e finalizou, é o que dá termos o corpo e a alma a comandar a chuva. Pois paciência e boa sorte, afastou-se o homem mais cavado do cigarro oferecido.
O estrangeiro viu-o afastar-se. Sentiu frio e o cheiro do vento insinuou-se até ser insuportável. A mão na face e percebeu que era uma lágrima primeira, depois uma segunda e uma corrente de gotas pesadas a atingirem-no violentamente. Olhou o céu. Vinha aí tempestade. Veio a tempestade, até que as suas lágrimas fossem diluídas na chuva que encerrava em si.
... já não cheirava a vento.Tenho uma voz que é mediana e tenho sonhos
Mas sem maneira de atingir dias risonhos
Não tenho os pés no chão mas tenho fantasias
Coisas concretas não conheço e tenho dias
Em que a maneira de acordar é com lamentos
Deixou o calor do lado de fora do corpo enquanto se tentava encontrar do lado de cá do espelho. Quando o calor se viu afastado tão rudemente do corpo que o alimentava, desfez-se amargamente e o céu chorou. Descalçou o tempo dos pés e pôs o cansaço de lado. A mão em forma de concha colou-se ao ouvido, todos sabem a melhor forma de verdadeiramente se escutar. E então os murmúrios sucederam-se... nem monótonos nem entusiasmados, nem suplicantes nem exigentes, nem nefastos nem egoístas. Apenas descaracterizados, indiferentes e iguais a tantos outros que escutara ontem. Anteontem. Antes disso. Todos os dias antes deste, desde que resolvera tentar ouvir. Indiferentes e iguais, como todos os que ouvirá amanhã e depois. Eventualmente um murmúrio mais forte surgirá. Será dito como se escrito fosse, terá cor de canção e cheiro a olhos que ainda não viram o mundo.
Quando esse murmúrio ausente se tornar voz concreta, fechará os olhos e tentará compreender. E desejará não ter ouvido todos os pedidos e todos os desejos da espécie humana, porque saberá que não foi das suas mãos que o Homem nasceu, mas que as suas próprias mãos estão atadas pelo Homem que brinca aos deuses e aos Homens.Nesse dia, Deus secará. Mas escutará. E valerá a pena.
Ao ver meu quarto aberto alguém entrou
Só no acender da luz vê que eu não estou